Revisitando Paulo Freire

INTRODUÇÃO:

Num momento em que existe um movimento para retirar do educador pernambucano Paulo Freire o título de patrono da Educação Brasileira, nada mais oportuno que revisitar seu pensamento. Dificilmente um educador/a se torna tão universal e respeitado/a, como Paulo Freire hoje o é, se sua obra não tiver consistência teórica e prática. Neste breve texto, com foco no seu livro “Pedagogia da Autonomia, numa abordagem informal, quase coloquial, e sem preocupações acadêmicas, reflito (e tento contribuir) sobre um dos aspectos de sua vasta contribuição intelectual e pedagógica, que é o seu “olhar dialógico” do processo ensino-aprendizagem, isto é, uma abordagem complexa, múltipla, inter-relacional, interdependente, sistêmica, transformável e transformadora, baseada numa intensa e comprometida interação educador/a-educando/a e numa constante ação e reflexão sobre o agir.

A VISÃO DIALÉTICA DO UNIVERSO

Não há como não falar um pouco sobre a Dialética quando se aborda a obra de Paulo Freire. Este “instrumento/processo” de entendimento da realidade tem origem muito antiga e aparece em várias culturas ancestrais. Sua presença é marcante na filosofia oriental e é muito bem expressa no “diálogo” do Yin com o Yang que dá acesso ao Tao (a Verdade, o Caminho, a Iluminação). Ela também está presente nos primórdios da cultura helênica simbolizada nas duas serpentes entrelaçadas ao longo do caduceu de Mercúrio. Na Grécia antiga era vista como a Arte do Diálogo ou do Convencimento (através da argumentação), sendo que para alguns autores, dentro da assim chamada “civilização ocidental”, Zenon de Eléa (490-430 aC), teria sido seu criador.

Ainda na Grécia antiga, Sócrates e Platão a entendiam como sendo a arte de articular o pensamento com a realidade, tornando-se um método superior de busca da verdade. Sócrates defendia que através da confrontação lógica e dedutiva de duas proposições ou premissas, chegaríamos a uma terceira, chamada de “conclusão”, maneira essa de raciocinar que acabou ficando conhecida como “silogismo socrático” e também como o “uso sistemático de perguntas e respostas”. Já Platão defendia que a Dialética era um exercício interior e meditativo que ajudaria o ser humano a conhecer os “supremos mistérios ou as mais altas verdades”.

Para Aristóteles seria a maneira mais honesta de se fazer qualquer investigação se constituindo no próprio método científico. Heráclito de Éfeso, (540-480), defendia uma visão mais abrangente da Dialética (e é, por isso, considerado por muitos como o “pai” da Dialética moderna e holística) e afirmava que tudo “existe” em constante mudança e que o “conflito” está na essência de todas as coisas, pensamento este expresso na sua famosa máxima “Panta Rei” (tudo muda). Para ele a vida e a morte, o sono e a vigília, a juventude e a velhice, são realidades que se transformam uma nas outras, negando a existência de qualquer estabilidade. É a “luta” dos contrários que move o mundo.

Depois de um grande período de adormecimento a Dialética, quando do Iluminismo, retorna a “pauta do dia” (e de forma mais abrangente), passando agora a ser entendida como uma maneira de compreensão do próprio Universo. Diderot, um dos responsáveis por esse “ressurgimento”, defendia que “o todo está sempre mudando e que se o todo muda, ele próprio está sendo modificado”. Afirmava também que todos os seres circulam uns nos outros e tudo é um fluxo perpétuo, sendo a vida uma sucessão de ações e reações. Para ele, nascer, viver e morrer é apenas mudar de forma.

Ainda na Renascença, Schelling considerava que a Dialética era um meio de acesso ao Absoluto, a Identidade Suprema, a Unidade e a Totalidade Infinita, consciência essa que seria o objetivo do conhecimento e da existência humana. Hegel, por sua vez, resgata Heráclito e a visão da Dialética como estrutura da realidade e do absoluto, afirmando que o confronto entre uma tese e sua antítese, na eterna luta dos contrários, no atrito e confronto das diferenças, produziria inexoravelmente a uma categoria superior, denominada síntese, processo esse que, ad eternum, produziria uma evolução através da “conciliação dos contrários”, nas coisas e no espírito. A dialética Hegeliana era tão vasta e rica que Marx e Engels consideravam-na a mais profunda doutrina da evolução e do desenvolvimento das coisas, da natureza e do pensamento.

Segundo Engels, as leis gerais da Dialética, comuns tanto a História quanto a Natureza, podiam ser reduzidas, em sua essência, a apenas três: a Lei da Passagem da Quantidade para Qualidade, a Lei da Interpenetração dos Contrários e a Lei da Negação da Negação. Para Marx a Dialética é muito mais do que um método ou uma estratégia de questionamento e reflexão. É a ciência das leis gerais do movimento, tanto do mundo exterior como do pensamento humano. É a própria estrutura do mundo e de como tudo nele funciona devendo ser nossa tarefa não apenas interrogar, mas ajudar a transformá-lo, muitas vezes produzindo ou aprofundando as contradições, atitude essa que Sartre chamava, na sua Crítica da Razão Dialética, de “a lógica viva da ação”.

Já para Politzer, a Dialética possuiria não três, mas quatro características fundamentais. A primeira seria a de que tudo se relaciona com tudo, isto é, existe uma unidade de todas as coisas. A segunda característica seria a de que tudo, permanentemente, se transforma. A terceira seria a mudança qualitativa que ocorreria após um acúmulo quantitativo (princípio da evolução) e a quarta seria a luta dos contrários, isto é, a necessidade da polaridade, da oposição, do contraditório e da ação que gera efeitos, para que haja a transformação qualitativa que gera a “evolução”.

Em verdade, elementos da Dialética podem ser vistos em muitas outras concepções filosóficas como, por exemplo, em Leibniz, Spinoza (monismo imantenista), Hobbes, Bayle, Montaigne e em Pascal que afirmava, por exemplo, “como todas as coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas são sustentadas por um elo natural e imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes”.

Atualmente é a Física Quântica, via subsídios empíricos, que contribui para a visão dialética do universo, pois no mundo das partículas subatômicas nada, em toda a natureza, está em repouso absoluto. Pelo contrário, a natureza é a ausência de permanência. Há uma agitação perene e incessante e a transformação constante é a regra. Tudo aquilo que nos parece (macroscopicamente) material, inerte e imutável, é, em verdade, uma “ilusão” causada pela limitação de nossos sentidos humanos (fenômeno esse que os antigos chamavam de Maya).

Se nossos olhos pudessem enxergar distâncias de centésimo de milionésimos de centímetros veríamos o que os orientais chamam da Dança de Shiva, isto é, átomos ligados a átomos por forças eletromagnéticas, vibrando num verdadeiro frenesi. Até nas teorias mais avançadas da Física Quântica, como a Supersimétrica, podemos encontrar a Dialética “atuando”. As partículas elementares que compõe os prótons e os nêutrons (elétrons e quarks) teriam o seu oposto (s-elétron e o s-quarks) formando outro par dialético que, em outras palavras, seria a matéria unida à antimatéria confirmando Pitágoras, que afirmava que o Universo é a harmonia dos contrários.

Mesmo sabendo que ninguém nunca conseguirá “domesticá-la” ou “aprisioná-la” em concepções definitivas, pois como disse poeticamente Astrada “a Dialética é a semente de dragões”, a abordagem holística e ativa da pedagogia de Paulo Freire é definitivamente dialética. Ela é compatível com a atual teoria dos sistemas vivos, onde a natureza não pode ser entendida como blocos ou partes isoladas, mas sim como uma teia de organização viva, onde tudo se relaciona intimamente, e as partes são interdependentes e mutáveis. Em nossa opinião, essa concepção complexa e integral do processo ensino aprendizagem, acompanhada de um “agir” coerente, foi expressa e abordada (como força motivadora, fonte primária e verdade fundamental) no livro Pedagogia da Autonomia, de 1996, que passamos a comentar e a sumarizar a seguir.

EXIGÊNCIAS DO ENSINAR

Segundo Paulo Freire, ensinar exige um elenco de fatores que demonstram a complexidade, integralidade e o poder transformador da prática pedagógica. No texto “Pedagogia da Autonomia” (última obra publicada em vida e que abordaremos de forma independente e crítica, seguindo a recomendação do próprio autor), a partir de um tripé epistemológico (não há docência sem discência; ensinar não é transferir conhecimento; ensinar é uma especificidade humana) ele elenca mais de trinta variáveis necessárias a um educador/a: 1) rigorosidade metódica; 2) pesquisa; 3) respeito aos saberes dos educandos/as; 4) criticidade; 5) estética; 6) ética; 7) corporeificação das palavras pelo exemplo; 8) riscos; 9) aceitação do novo; 10) rejeição a qualquer forma de discriminação; 11) reflexão crítica sobre a prática; 12) reconhecimento e a assunção da identidade cultural; 13) consciência do “inacabamento”; 14) reconhecimento de ser condicionado; 15) autonomia do ser do educando/a; 16) bom senso; 17) humildade; 18) tolerância; 19) luta em defesa dos direitos dos educador/a; 20) apreensão da realidade; 21) alegria; 22) esperança; 23) convicção de que a mudança é possível; 24) curiosidade; 25) segurança; 26) competência profissional; 27) generosidade; 28) comprometimento; 29) compreensão que a educação é uma forma de intervenção no mundo; 30) liberdade; 31) autoridade; 32) tomada consciente de decisões; 33) saber escutar; 34) clareza de que a educação é ideológica; 35) disponibilidade para o diálogo; e, 36) querer bem aos educandos/as.

Para Freire uma das tarefas primordiais dos docentes é trabalhar com os educandos/as a rigorosidade metódica. Para tanto afirmaríamos que um educador/a tem que incorporar, no dia a dia do “chão da escola”, aquilo que poderíamos denominar de “rigorosidade metódica do espírito científico”. O educador/a contemporâneo tem que rigorosamente vivenciar no seu cotidiano pelo menos 10 atitudes fundamentais para aqueles que devem compreender e construir o conhecimento interativamente com seus estudantes, atitudes essas que, em conjunto, denomino como sendo a “Regra dos 10 Cs” (Competência, Curiosidade, Criticidade, Ceticismo, Criatividade, Confiança, Coragem, Construtividade, Coerência, Compromisso).

Competência no sentido de sempre tentar fazer “bem feito”, oferecendo o melhor do seu potencial, em qualquer atividade desempenhada ou tarefa executada. Curiosidade, na linha do querer aprender sempre, através de uma inquietação indagadora. A Criticidade, na obrigação de sempre analisar crítica e sistematicamente toda e qualquer informação que recebemos ou compartilhamos. Ceticismo, no viés da dúvida como instrumento na busca da verdade, que são sempre “provisórias”. Criatividade, como estímulo a inventividade. Confiança, no próprio potencial de contribuir na construção de novos conhecimentos, saberes e tecnologias. Coragem, para quebrar paradigmas, para ser e pensar diferente “do padrão ou do senso comum” (inclusive nas universidades e no meio científico). Construtividade, como neologismo para fazer o que puder, onde estiver e com o que tiver disponível. Coerência, com a visão holística, sistêmica, inter-relacional e de interdependência de tudo e de todos, isto é, coerente com a visão dialética. Finalmente, compromisso com as necessidades e qualidade de vida dos seres humanos, com um meio ambiente equilibrado e sustentável e com o bem-comum.

Segundo Freire, a pesquisa contínua é essencial. Tanto na constante investigação e busca de novos conhecimentos quanto na produção de novos saberes. Na Era do Conhecimento e da Inovação, devemos ser também pesquisadores (inclusive professores/as e alunos/as). Devemos todos “fazer ciência” e nos “comportar” como verdadeiros investigadores científicos.

Se trans e interdisciplinarmente (e, portanto, dialeticamente) todos os saberes são importantes e complementares, os dos estudantes não podem e não devem ser secundarizados. Como desprezar, na procura de uma maior interação da relação professor-estudante, todo o cabedal de vivências e conhecimentos trazidos pelos alunos/as? Para Paulo isso não é só uma questão de respeito, mas é absolutamente pedagógico e rico (para ambos) estabelecer trocas e influências entre os currículos escolares e os “currículos” de/a vida do educando/a. Rousseau defendia que para educar é preciso conhecer o outro e, claro, a cultura onde ele está inserido.

Outra exigência de Freire é a de que o educador/a precisa promover a superação de uma “ingenuidade desarmada” para uma criticidade sistemática e epistemológica. Por quem, porque, para quem e para que aquele conteúdo foi produzido e está sendo compartilhado? Entender o que está por trás do conhecimento e das informações “compartilhadas” é essencial para uma verdadeira autonomia, quer intelectual quer pedagógica.

Para Paulo, ensinar exige uma estética onde a decência e a “boniteza” devem estar de mãos dadas. Não há nenhuma justificativa para apartar a prática pedagógica do conceito de bom, belo e verdadeiro no cotidiano escolar. O dia a dia do educador/a pode e deve também ser regido por uma estética. Como Freire sempre afirmava, “ensinar e aprender não pode dar-se fora da boniteza e da alegria”. Aliás, podemos interpretar que para ele, a prática docente não era apenas indissociável da boniteza, era a própria Boniteza.

A Ética deve ser vivida e não apenas ensinada. Mesmo para aqueles que, como eu, entendem que a Ética e a Moral são relativas (variando com o tempo, lugar e cultura) nos parece apropriado ao educador/a defender e tentar tornar universal e hegemônica uma Ética e uma Moral que tenham como pilares o Bem-Comum, a Justiça, (a serviço do bem-comum) o respeito à Vida (em todas as suas formas e manifestações), à Dignidade da Vida Humana e aos Direitos Humanos. Para Paulo Freire, não é possível pensar os seres humanos longe da Ética e muito menos “fora” dela. Portanto, o educador/a não pode ficar alheio a formação ética e moral do educando/a, pois educar é substantivamente formar, assim como ensinar conteúdos é de certa forma um testemunho ético do professor.

As palavras encantam, mas os exemplos arrebatam. Por isso, ensinar exige exemplo. Paulo chama de farisaica a postura do “faça o que eu mando e não o que faço”. Uma prática em que o educador/a “desdiz” com suas ações os ensinamentos compartilhados no ambiente pedagógico é verdadeiramente uma tragédia, muito pior do que um mau exemplo.

Ensinar exige riscos. Tudo na vida é uma seqüência de “tentativa-erro”, denominada por muitos como “curva de aprendizado”. Faz-se necessário “permitir” o erro. Não há nenhum problema em errar. O que não se pode aceitar é não se aprender com os erros ou repeti-los sistematicamente. Aliás, defendemos que o adágio ilustrativo para essa exigência de Freire deveria ser “penso, logo me engano”. Todos os grandes personagens da história, em todas as áreas do conhecimento, erraram muito antes de acertar. Todos, sem exceção. Inclusive os vencedores de Prêmios Nobéis.

A aceitação do novo é difícil numa sociedade conservadora. Algumas vezes, até mesmo inaceitável. Como vimos anteriormente, a Dialética nos ensina que o novo sempre vem. Heráclito costumava afirmar que quando um homem entra novamente em um rio, nem o homem nem o rio são mais os mesmos. Para podermos educar para a inovação é condição “sine qua non” ter a clareza que tudo muda e, portanto, não podemos ter medo do novo. Muito pelo contrário. Temos que ser instrumentos e protagonistas da construção daquilo que inexoravelmente virá, isto é, do novo.

A discriminação de qualquer espécie é antes de tudo uma forma de ignorância já que a regra universal é a da multitude e da variabilidade. O Universo é a riqueza das diferenças e da interação dos contrários. O próprio vocábulo nos ensina que é o “uno” no “verso”. Paulo chama a atenção para a irrecusável prática do “inteligir” que deve ser baseada na comunicação e intercomunicação. Em outras palavras, “inteligir” é fazer o diálogo entre as diferenças numa eterna atitude de expressar, ouvir e entender sobre o que é comunicado. Em sua opinião não há inteligência que não seja comunicação do “inteligido”. Não há inteligência fora do diálogo.

Para Paulo o “fazer e o pensar sobre o fazer” são indissociáveis porque só se pensando criticamente sobre a prática de ontem e a de hoje, é que se pode melhorar a prática de amanhã e “mais eficiente me torno em mudar a mim mesmo e em promover a mudança”. Ação sem reflexão é deixar-se conduzir por um ativismo sem estratégias e sem indução de resultados. Portanto, tanto a crítica quanto a autocrítica, amorosa e construtiva, devem fazer parte do “pão nosso de cada dia”.

O fortalecimento, por exemplo, da autonomia intelectual, da criatividade, da capacidade inovadora, do empreendedorismo com responsabilidade social e dos direitos humanos, tem que fazer parte de uma estratégia educacional comum para todos nós, educadores/as e educando/as. Entretanto, o reconhecimento, o respeito e a assunção da identidade cultural de todos os envolvidos na prática educativa, é absolutamente fundamental. Para Paulo, qualquer discriminação, além de imoral e inaceitável, é uma perda de oportunidade dialógica. A estratégia pedagógica não pode alhear-se das condições sociais, culturais e econômicas dos alunos/as, de suas famílias e de seu entorno, devendo o educador/a conviver com o diferente, jamais os considerando inferior.

Para Freire a “inconclusão” faz parte da natureza do fenômeno vital sendo que a consciência do “inacabamento” do ser humano, e de sua caminhada evolutiva física, histórica e social, faz parte da “espiritualização do mundo” e de base para intervenção no mesmo, possibilitando “ir muito além”. É nossa opinião que esse “inacabamento” também se reflete na questão dos saberes e conhecimentos, já muito bem expresso por Sócrates (“só sei que nada sei”), Platão (“a parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos” e por Newton (“o que sei é uma gota. O que ignoro é um oceano”). Quando conscientes do nosso “inacabamento”, assim como dos nossos saberes, ficamos mais abertos à procura, mais curiosos e, ao mesmo tempo, eternos aprendizes e construtores. Paulo defendia que ninguém nasce feito. Vamo-nos fazendo aos poucos, na prática social de que nos tornamos parte.

O educador/a tem que ter a clareza e a consciência de que os indivíduos são (ou podem ser) culturalmente, historicamente e ideologicamente condicionados ou “robotizados”, para que a educação não perpetue tais condicionamentos, formando sujeitos ativos e protagonistas da história de suas vidas e da sociedade. É o que Paulo chamava, nos anos 60 do século passado, de conscientização para podermos trilhar o caminho que nos fará chegar ao mundo de liberdade, de opções e possibilidades.

É imprescindível que não só se respeite, mas se estimule a curiosidade e a rebeldia/insubmissão intelectual dos educando/as. Duvidar, comparar, indagar, criticar tem que fazer parte do cotidiano escolar. Poderia até mesmo afirmar que o “o bom aluno é aquele que discorda de seu professor” e também que “o bom professor é aquele que permite o seu aluno se insubordinar”. Aliás, a cada dia que passa, acredito que educar é muito mais ouvir do que falar e que o respeito e o estímulo à “autonomia do ser” do educando/a (e, claro, de sua autonomia intelectual) deve ser a maior de todas as exigências feitas a quem se considera um verdadeiro educador/a.

O bom senso defendido por Paulo é do equilíbrio e da inteligência que adapta a proposta pedagógica e a intervenção do educador/a à realidade do contexto, e não o contrário. É o bom senso do diálogo, e não a imposição de “verdades” e de ações padronizadas. É o bom senso que sonha, mas que também analisa com atenção a vida real e ”realiza” sua fantasia competentemente, através da melhor estratégia possível para um determinado cenário.

Sem dúvida alguma, ensinar exige humildade. Diante da certeza do seu “inacabamento” e do “só sei que nada sei”, só existem três possibilidades para um educador/a arrogante e farisaico/a, (um verdadeiro “Ph.Deus”): ou ele/a foi mal formado/a e ainda não sabe que não sabe nada, ou sabe que sabe muito pouco, mas tem insegurança de assumir suas limitações, ou apesar de saber que nada sabe tem um grave distúrbio de personalidade. A ausência de humildade inclusive atrapalha o desenvolvimento do educador/a, pois o/a impede de prosseguir na sua “eterna” formação continuada, com tudo e com todos (e a todo o momento).

Não dá para ser dialético, dialógico e transformador se não houver tolerância com o diferente. Paulo faz referência à tolerância com as diferenças como uma necessidade para a que a riqueza da diversidade possa aflorar. Tolerância não só como qualidade de conviver com o diferente, mas também como a “virtude da convivência humana”. Segundo sua viúva, Ana Maria, essa exigência de tolerância “refletia sua visão de um mundo verdadeiramente democrático e sua admiração pela diversidade e crença na horizontalidade das relações entre as pessoas como sujeitos da história”.

Como sabemos, são incontáveis as variáveis envolvidas no processo ensino-aprendizado. Todas relevantes e que poderiam ser agrupadas em muitos “macro grupos”. Se utilizássemos apenas cinco macro grupos de variáveis poderíamos destacar: a) aquelas envolvidas com o “potencial cognitivo” do estudante (como, por exemplo, a questão da alimentação, saúde, estimulação cognitiva e acolhimento emocional, particularmente na primeira infância); b) as envolvidas com a motivação do educando/a (como por exemplo, a valorização da escola, ambiente escolar com condições mínimas de bom funcionamento e estimulante, etc); c) as que estão associadas ao potencial pedagógico do educador/a; d) as relacionadas as políticas e práticas pedagógicas e, finalmente, aquelas que se relacionam com a motivação do professor que inclui, claro,  a sua remuneração. Para Paulo a luta em defesa dos direitos dos educadores/as, inclusive os salariais, era não só um direito, mas um dever irrecusável. Continua atual uma ampla mobilização de todos os setores da sociedade brasileira para o estabelecimento do piso de 10% do PIB (como fonte de financiamento do setor educação).

Paulo nos chama atenção para a importância da apreensão da realidade para se ter clareza sobre a prática educacional. Para ele, precisamos ter muito cuidado com o risco associado a um “aprendizado” baseado numa memorização mecânica e numa transferência de informações. Esse é um tipo abordagem que, em verdade, muitas vezes, não só nos impede de entender a realidade, mas também nos anestesia em relação à mesma. Portanto, esse tipo de “aprendizado” dificulta a mudança, a criação, a construção e a reconstrução da sociedade, fazendo-se necessário “constatar” e “ler o mundo” para não se adaptar e não se “acostumar”, podendo assim intervir na realidade.

Na opinião do nosso grande educador, não devemos deixar que a prática educativa “aconteça” sem alegria, pois a mesma é um elemento importante na atmosfera do espaço pedagógico. Para Paulo, existe uma relação entre alegria e esperança, alertando-nos para o risco de um discurso monótono e repetitivo que pode contribuir para uma “desesperança” e uma inação. Em verdade a atividade docente é, per se, uma experiência alegre por natureza (ou deveria ser).

A convicção de que uma mudança para um mundo diferente e melhor é possível, permeia toda a vasta obra de Paulo Freire. No opúsculo em tela, mais uma vez, o autor reafirma que a problemática social não é algo inexorável e predeterminado e, sim, uma possibilidade histórica que nos bate a porta como oportunidade de ação, convidando a todos, docentes e discentes, a sermos protagonistas de mudanças e de uma permanente construção.

O professor tem que ter a compreensão do papel da curiosidade para ambos (educando/a e educador/a) e que nada deve inibi-la. Para Paulo, o bom clima pedagógico-democrático é aquele em que o educando/a vai aprendendo à custa de sua prática, onde sua curiosidade deve estar em permanente exercício. E ele vai mais além, ao afirmar que a curiosidade de aprender é um direito, sendo que deveríamos todos aproveitar a pergunta (expressão de uma curiosidade) como uma oportunidade para fazer uma reflexão crítica sobre ela própria. Professores e alunos devem se assumir “epistemologicamente curiosos” lembrando que o exercício da curiosidade estimula a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar e comparar. Para Freire “sou tão melhor professor quanto mais eficientemente consigo provocar a curiosidade do estudante (e o refinamento da mesma)”.

Na visão de Paulo, a segurança do educador/a é expressão e decorrência de sua competência profissional que, por sua vez, é resultado de sua formação. Nosso dileto autor é bastante incisivo, e até mesmo duro, afirmando que um educador/a que não leva a sério sua formação não tem condições morais de coordenar as atividades de classe.

Para Freire a generosidade era a antítese do autoritarismo e daquilo que ele chamava de “arrogância farisaica”. Inclusive, para ele, a mesquinhez do comportamento do educador/a é a coisa que mais inferioriza a tarefa formadora de autoridade. Aliás, Paulo enfatiza que o clima de respeito dentro dos espaços pedagógicos nasce das relações justas, sérias, humildes e generosas.

Assim como é impossível sair na chuva e não se molhar, para Paulo é impossível exercer um papel de educador/a sem comprometimento. A educação compromete e exige compromisso tanto na relação dialógica, quanto numa relação mais ampla com toda a sociedade e com todos os humanos seres. “Comprometimento” com o querer mudar e construir “um outro mundo possível” e com a compreensão de que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Como ele gostava de lembrar, “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode” e “a experiência vivida na escola pode ser apenas um momento, mas é um momento que precisa ser autenticamente vivido”. De fato, um verdadeiro professor sabe que educar é uma das maiores experiências existenciais.

Ensinar exige tanto liberdade quanto autoridade, para que não haja um desequilíbrio no contexto pedagógico prejudicando seu funcionamento. Para Paulo a liberdade sem limite é tão negativa quanto a “liberdade asfixiada ou castrada”, licença poética para o autoritarismo e a imposição. Liberdade essa que, entretanto, não pode ser confundida com licenciosidade e que amadurece no confronto com outras liberdades. Vale ressaltar que a liberdade, como dizia Freire, é “fundante” na construção da autonomia intelectual dos nossos educando/as e para a tomada de decisões dos/as docentes e discentes, quer na vida escolar quer como cidadãos.

 Saber escutar não apenas com os ouvidos, mas também com a disponibilidade de abertura à fala, ao gesto e às diferenças do outro, se enquadra nas categorias exigidas por Paulo para poder ensinar. Aceitar e respeitar essas diferenças são virtudes sem as quais a escuta não se pode dar. É “escutando” dessa forma que aprendemos a falar com os demais. Quem assim se comporta, deixa de falar impositivamente, mudança essa tão necessária para atingir uma verdadeira comunicação com os estudantes. Portanto, para Freire, os educadores/as têm que estar comprometidos com o verdadeiro comunicar e não com puros comunicados.

A clareza de que a educação é ideológica é um paradigma para Paulo Freire. Para ele, ensinar e aprender tem a ver com o esforço metodicamente crítico do professor/a e do aluno/a, sendo a escola um espaço onde se deve trabalhar criticamente a inteligibilidade das coisas, dos fatos e sua comunicabilidade. O tempo todo (e todo o tempo) devemos ficar atentos para que não ocorra a ocultação da verdade, a opacificação e distorção da realidade e dos acontecimentos, que podem nos deixar “míopes” e/ou confundir nossa curiosidade. É papel da educação, desvendar os véus, pois nenhuma forma de comunicação é neutra.

Paulo, em toda a sua obra (e não poderia ser diferente nessa que considero seu “ápice” literário), defende a importância da “disponibilidade para o diálogo”, pois sua ausência ajudaria a asfixiar a criatividade e o gosto da aventura do espírito. Freire nos lembra que discursos verticais e autoritários são a antítese da comunicação dialógica e chama atenção para a importância “positiva” da disciplina das regras de discussão de grupo que são sempre necessárias num “diálogo” coletivo. Para Freire, o sujeito que se abre ao mundo e aos outros, inaugura, com seu gesto, a relação dialógica, confirmando através da inquietação e curiosidade, sua inclusão no permanente movimento da História.

Finalmente, Paulo realça não só a importância de se querer bem aos educandos/as, mas também a “coragem” para se querer bem aos estudantes e a própria prática educativa em que estamos inseridos e labutando. Se por um lado, a afetividade e a amorosidade requerida ao ato de educar não nos pode assustar, por outro, ela também não deve nos apartar da luta por um mundo mais humano. Jamais podemos deixar que nada ou ninguém nos torne “coisa cuidando de coisa”, ou “coisa fingindo educar coisa”, mas sim (e sempre) gente cuidando de gente, gente formando e se formando gente.

COMENTÁRIOS FINAIS:

Além do seu conhecido comprometimento com as classes mais desfavorecidas, a obra de Paulo Freire, com sua tônica em uma educação integral e transformadora, é totalmente dialética e contempla todos os seus aspectos, como podemos observar no livro “Pedagogia da Autonomia”, que particularmente considero como sendo sua obra síntese e expressão de sua maturidade como educador.

Neste livro, a análise e a compreensão holística da problemática educacional estão sempre presentes (ao contrário de muitas abordagens simplórias de unicausalidade ou paucicausalidade, freqüentemente encontradas na literatura), assim como o papel transformador da educação, tanto no engajamento do educador/a, quanto no acúmulo quantitativo de uma pedagogia que gera um salto qualitativo, através de uma intervenção consciente e coerente com a criação de uma sociedade mais justa, fraterna, livre e feliz, pois como disse certa vez Paulo “O mundo não é. O mundo está sendo. Está em permanente construção”.

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE.

Fonte: https://entrelacosdocoracao.com.br/2020/06/revisitando-paulo-freire/

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